
📷 Foto ilustrativa: rodovia expressa e infraestrutura logística em expansão na Índia
A Índia anunciou que ultrapassou o Japão como a 4ª maior economia do mundo em PIB nominal e, mantendo esse ritmo de crescimento, deve ultrapassar a Alemanha nos próximos anos. Segundo projeções do FMI para 2025, a diferença entre Índia e Japão é relativamente pequena, cerca de US$ 155 bilhões, o que, considerando as taxas de crescimento, torna a ultrapassagem estrutural e não circunstancial.
Sob o comando de Narendra Modi desde 2014, a Índia passou a seguir um projeto de nação nacionalista e desenvolvimentista. A partir desse período, o Estado indiano deixou de apenas acompanhar o crescimento e passou a organizar e facilitar o crescimento, atuando como investidor estratégico, com foco em infraestrutura, industrialização, digitalização, atração de capital produtivo e criação de condições para a expansão do setor privado.
Esse modelo não é de Estado mínimo nem de estatização ideológica. Trata-se de um Estado facilitador e condutor, que reduz entraves, desburocratiza, simplifica regras e, ao mesmo tempo, mantém controle firme sobre setores estratégicos.
A demografia atuou de forma decisiva. A Índia possui uma população jovem em idade produtiva, enquanto o Japão enfrenta envelhecimento acelerado e declínio demográfico, fator que limita seu crescimento econômico estrutural. Esse diferencial demográfico foi absorvido por políticas públicas que ampliaram emprego, formalização e produtividade.
Houve uma explosão de investimentos em massa em infraestrutura, com rodovias, ferrovias, portos e aeroportos. Esse processo reduziu custos logísticos, aumentou a competitividade industrial e integrou o mercado interno indiano, que opera como um verdadeiro continente econômico. O National Infrastructure Pipeline consolidou essa estratégia ao planejar trilhões de dólares em obras, tratando infraestrutura como motor direto do crescimento.
A reindustrialização foi parte central do projeto. A Índia passou a disputar fábricas antes concentradas na China, especialmente nos setores de eletrônicos, farmacêutico, automotivo, defesa e tecnologia, reposicionando o país nas cadeias globais de valor.
A digitalização em escala continental teve papel estrutural. A Identidade Digital (Aadhaar), os pagamentos instantâneos (UPI) e a digitalização de serviços públicos reduziram a corrupção, elevaram a eficiência estatal e integraram milhões de pessoas à economia formal. A iniciativa Digital India promoveu inclusão financeira em massa e ganhos expressivos de produtividade, especialmente entre micro, pequenas e médias empresas, que passaram a ter maior acesso a crédito e mercados.
O programa PLI (Production Linked Incentive) aprofundou essa lógica. O Estado passou a pagar bônus para quem produz mais dentro da Índia, fortalecendo empresas nacionais e atraindo multinacionais. Trata-se de política industrial clássica, combinada com reformas de mercado que simplificaram regulações trabalhistas e tributárias, ampliando a formalização e a eficiência produtiva.
O contexto global também foi favorável. Empresas passaram a reduzir a dependência da China e redesenhar cadeias produtivas. A Índia emergiu como alternativa viável, grande, politicamente estável e previsível.
A política externa indiana tornou-se uma das mais pragmáticas do mundo, mantendo boas relações com Estados Unidos, Rússia, Europa, BRICS+ e estabilizando relações com a China, sempre preservando a soberania nacional. A diplomacia é orientada por interesse nacional, não por disputas ideológicas.
O Japão ficou para trás devido ao envelhecimento populacional, crescimento baixo por décadas, economia madura sem grandes saltos estruturais e um iene desvalorizado, fator que reduz o PIB nominal. O Japão continua rico, tecnológico e organizado, mas cresce pouco, e no século XXI a ausência de crescimento cobra seu preço.
Em termos de PIB per capita, os números deixam claro o estágio distinto de desenvolvimento. O Japão mantém renda elevada, a Alemanha permanece entre as economias mais ricas do mundo e a Índia ainda possui renda per capita baixa. Isso não invalida o crescimento indiano, apenas demonstra que o país ainda está em processo de convergência, o que explica a centralidade do Estado no planejamento econômico.
A Índia adota um modelo econômico misto. O Estado controla o que é estratégico, o setor privado atua onde gera eficiência e o capital estrangeiro entra sob regras nacionais. Não há Estado mínimo em áreas sensíveis e não há estatização ideológica.
Os setores energéticos são fortemente estatais. Petróleo, gás e eletricidade contam com empresas públicas dominantes como ONGC e Indian Oil Corporation, com o setor privado atuando de forma complementar. Energia é tratada como soberania.
O transporte pesado e a infraestrutura crítica seguem sob controle estatal. A Indian Railways é 100% estatal. Portos, aeroportos e rodovias são planejados pelo Estado e operados por privados via concessão.
O setor espacial e a tecnologia sensível são estatais, sob comando da ISRO, com o setor privado atuando como fornecedor. Espaço é defesa, soberania e prestígio nacional.
A defesa e a indústria militar permanecem majoritariamente estatais, com HAL e DRDO, com abertura controlada ao setor privado. O setor nuclear é 100% estatal, controlado pela NPCIL.
O sistema financeiro é dominado por bancos públicos, com destaque para o State Bank of India. Bancos privados existem, mas o crédito estratégico passa pelo Estado.
O setor privado é forte em tecnologia, serviços, farmacêutico, indústria leve, média e startups. Estatais e empresas privadas convivem sem guerra ideológica.
O que garante soberania é controlado pelo Estado.
O que gera eficiência é operado pelo setor privado.
O que ameaça a autonomia nacional recebe controle rígido.
Fontes: Revisão Econômica Anual do Governo Indiano (Press Information Bureal); Projeção do Fundo Monetário Internacional (FMI).