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Como a China domesticou o capitalismo e o socialismo e criou o socialismo com características chinesas

Imagem ilustrativa – China | © ZIN Brasil News – Todos os direitos reservados.

A confusão permanece porque muitos insistem em analisar a China usando rótulos ocidentais para explicar um sistema único. É capitalista? É socialista? Não é um nem outro. Trata-se de uma síntese própria, organizada sob a direção abrangente do Partido e uma governança baseada na lei.

Hoje a China opera um modelo no qual o Estado está acima de tudo e controla os pilares centrais da economia. Não abre mão de setores estratégicos. Energia, bancos centrais, grandes bancos, infraestrutura e defesa permanecem sob domínio estatal. Esses setores não são negociáveis, pois garantem soberania nacional, capacidade de planejamento e estabilidade econômica. País que perde controle dessas áreas deixa de decidir seu próprio futuro.

Por outro lado, o Estado autoriza e incentiva a iniciativa privada em setores produtivos e tecnológicos. Tecnologia, indústria, exportação e logística operam sob um regime de mercado guiado. O privado pode atuar, competir e lucrar. Tudo isso ocorre dentro de planos quinquenais, metas industriais e diretrizes políticas definidas pelo governo.

O mercado existe, porém não atua de forma livre. Não há autonomia econômica fora do enquadramento político. O planejamento estatal define prioridades, orienta investimentos e estabelece limites claros. O capital funciona como instrumento do desenvolvimento nacional, não como força soberana.

Esse sistema não elimina o mercado nem submete o Estado ao capital. Capitalismo e socialismo deixam de ser ideologias puras e passam a ser ferramentas de governo. A questão central não envolve rótulos. Envolve comando. Na China, o projeto nacional vem acima de tudo.

Isso serve de lição ao Brasil. Qualquer País sério constrói o próprio sistema, usa a iniciativa privada a favor da nação e mantém setores estratégicos sob domínio estatal. Soberania não se negocia e projeto nacional não se terceiriza.

Além do controle direto dos setores estratégicos, o Partido mantém presença institucional dentro das grandes empresas, inclusive privadas, por meio de comitês partidários que influenciam decisões estratégicas, governança corporativa e alinhamento político. Isso impede que conglomerados econômicos se transformem em centros autônomos de poder, como ocorre em sistemas liberalizados.

A política industrial chinesa não se limita a metas genéricas. Programas como o Made in China 2025, a estratégia de autossuficiência tecnológica, a política de semicondutores, inteligência artificial e energia avançada demonstram uma coordenação profunda entre Estado, universidades, empresas estatais, empresas privadas e financiamento público. O objetivo não é apenas crescer, mas dominar cadeias produtivas críticas e reduzir vulnerabilidades externas.

O sistema financeiro também opera sob forte direção estatal. O controle de capitais, a gestão cambial do yuan, o papel dominante dos bancos públicos e o direcionamento do crédito permitem ao governo amortecer crises, controlar ciclos econômicos e proteger o planejamento de longo prazo contra choques especulativos internacionais.

A propriedade da terra urbana e rural permanece majoritariamente sob controle estatal ou coletivo, o que impede a financeirização descontrolada do território e permite planejamento urbano, industrial e logístico de longo prazo. O Estado não perde capacidade de ordenar o espaço econômico.

Outro elemento central é a estratégia de “dupla circulação”, que busca equilibrar mercado interno forte com integração externa seletiva. A China reduz dependência de exportações puras, fortalece consumo interno, protege setores sensíveis e mantém abertura pragmática onde há ganho estratégico.

O modelo também opera por experimentação controlada. Zonas econômicas especiais, projetos-piloto regionais e testes regulatórios permitem inovação institucional sem comprometer a estabilidade sistêmica. O que funciona é escalado nacionalmente. O que falha é corrigido sem trauma político.

Externamente, iniciativas como a Nova Rota da Seda ampliam acesso a mercados, logística, financiamento e influência geoeconômica, ao mesmo tempo em que diversificam rotas comerciais e reduzem dependência de centros financeiros ocidentais.

Esse arranjo garante previsibilidade estratégica, continuidade de políticas públicas e blindagem contra ciclos eleitorais curtos, pressões especulativas e captura do Estado por interesses privados. O Partido funciona como eixo de coordenação de longo prazo, garantindo coerência entre planejamento econômico, estabilidade política e projeção internacional.

Ao mesmo tempo, trata-se de um sistema altamente centralizado, com controle político rigoroso, baixa pluralidade institucional e riscos inerentes à concentração de poder. O modelo prioriza estabilidade, eficiência estratégica e coesão nacional acima de liberalismos políticos clássicos. Não é um modelo exportável mecanicamente, mas um caso específico de engenharia estatal aplicada às condições históricas, culturais e geopolíticas chinesas.

Fontes: Cambridge University Press – The State and Capitalism in China; Wikipedia – Socialist Market Economy.

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