
Foto: Myotus, ICE protest in Minneapolis, Wikimedia Commons — CC BY 4.0
Uma sequência de episódios recentes envolvendo o Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas dos Estados Unidos (ICE) tem provocado forte reação pública, política e institucional no país. Em menos de uma semana, mais de 100 líderes religiosos foram presos durante um protesto, surgiram denúncias de uso de crianças como instrumento operacional em ações migratórias e um homem de 37 anos foi morto por agentes federais, em um caso cercado de controvérsias sobre a versão oficial apresentada pelas autoridades.
Os fatos ocorreram principalmente no estado de Minnesota, que se tornou o epicentro de protestos contra o endurecimento das políticas migratórias e o aumento da presença de agentes federais em áreas civis.
Prisão de líderes religiosos em protesto contra deportações
Na sexta-feira, cerca de 100 líderes religiosos de diferentes denominações foram detidos pela polícia durante uma manifestação pacífica no Aeroporto Internacional de Minneapolis–Saint Paul. O ato reuniu padres, pastores, rabinos e representantes de organizações de fé que protestavam contra as recentes operações do ICE e o aumento das deportações.
Segundo as autoridades, as prisões ocorreram após os manifestantes bloquearem áreas operacionais do aeroporto, ultrapassando os limites autorizados para o protesto. Os detidos foram liberados posteriormente, sem registro de violência, mas o episódio gerou críticas de setores religiosos e de direitos civis, que classificaram a ação como desproporcional e simbólica de um ambiente de repressão crescente ao dissenso.
Denúncias de uso de crianças em operações migratórias
Paralelamente às prisões, veio à tona um caso que ampliou a indignação pública. Um menino de cinco anos foi detido junto com o pai durante uma operação do ICE ao retornarem da escola. Relatos de autoridades escolares e testemunhas indicam que a criança teria sido instruída por agentes a bater na porta da residência, numa tentativa de verificar a presença de outros adultos, o que foi descrito por críticos como uso da criança como “isca” ou moeda de pressão operacional.
O Departamento de Segurança Interna (DHS) nega a acusação e afirma que a criança apenas permaneceu sob custódia temporária por razões de segurança enquanto o pai era detido. Ainda assim, o episódio levantou questionamentos sérios sobre protocolos, ética e impacto psicológico de operações migratórias envolvendo menores, reacendendo debates no Congresso e entre organizações de defesa da infância.
Morte de homem de 37 anos e versão oficial contestada
A situação se agravou após a morte de Alex Jeffrey Pretti, 37 anos, cidadão americano e enfermeiro de UTI, baleado por um agente federal durante uma ação relacionada à segurança em meio aos protestos. Inicialmente, autoridades federais informaram que a vítima estaria armada e teria representado ameaça aos agentes.
No entanto, vídeos gravados por testemunhas e divulgados posteriormente contradizem essa versão, indicando que Pretti segurava um telefone celular no momento do confronto, e não uma arma, o que desmente a narrativa inicial apresentada pelas autoridades federais. Familiares e organizações civis afirmam que ele não oferecia risco e pedem uma investigação independente sobre o uso da força letal.
O caso desencadeou novos protestos, pedidos de afastamento de agentes envolvidos e pressões por maior transparência nas operações do ICE e de outras agências federais.
Um debate que extrapola a imigração
Embora distintos, os três episódios revelam um padrão de tensão crescente entre autoridades federais e a sociedade civil, especialmente em temas que envolvem imigração, direitos humanos e uso da força estatal. Críticos argumentam que o endurecimento das políticas migratórias tem levado a ações cada vez mais agressivas, afetando não apenas imigrantes, mas também cidadãos americanos, líderes religiosos e crianças.
Autoridades federais defendem que as operações seguem a lei e são necessárias para garantir a segurança nacional. Ainda assim, a sucessão de eventos em Minnesota intensificou o debate sobre limites institucionais, proporcionalidade e responsabilidade do Estado, colocando o ICE no centro de uma das maiores controvérsias políticas e sociais dos EUA neste início de ano.
Fontes:
Reuters
Contextualiza a escalada das operações do ICE e os protestos em Minnesota.