A maior potência do mundo perde seu selo de democracia plena, vê sua credibilidade global abalada e, pela primeira vez, fica atrás do Brasil em qualidade democrática.

Imagem: Jmarcosny / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)
Por Alison Zani
Os Estados Unidos deixaram de ser classificados como uma “democracia liberal” pela primeira vez em mais de 50 anos, segundo relatório do V-Dem Institute. A nova avaliação rebaixa o país para a categoria de “democracia eleitoral”, indicando que, embora ainda existam eleições livres e competitivas, houve uma deterioração relevante na qualidade das instituições e no funcionamento do sistema político.
A mudança marca um ponto de inflexão simbólico no cenário internacional. Historicamente apresentados como referência de democracia liberal, os EUA passam agora a integrar um grupo de países onde o processo eleitoral continua ativo, mas os mecanismos de controle do poder e as garantias institucionais apresentam fragilidades.
Além do rebaixamento, o relatório aponta uma queda expressiva na posição global dos Estados Unidos. O país passou a ocupar a 51ª colocação no ranking de qualidade democrática, refletindo uma perda consistente de desempenho nos últimos anos. Esse recuo é acompanhado por uma redução significativa nos indicadores que medem liberdades civis, independência institucional e equilíbrio entre os poderes.
Um dos pontos mais marcantes do levantamento é que o Brasil aparece à frente dos Estados Unidos pela primeira vez nesse tipo de classificação. O país ocupa a 28ª posição, consolidando uma recuperação em relação a períodos anteriores e invertendo uma lógica histórica em que sempre esteve atrás da democracia americana.
De acordo com o relatório, a queda dos EUA está associada a um conjunto de fatores acumulados ao longo da última década. A polarização política intensa tem dificultado o funcionamento das instituições, gerando bloqueios no Legislativo e ampliando conflitos entre os poderes. Ao mesmo tempo, decisões judiciais e processos institucionais passaram a ser vistos sob uma ótica cada vez mais política, o que contribui para o desgaste da confiança pública.
Outro fator relevante é a crescente contestação da legitimidade eleitoral. Disputas em torno de eleições recentes ampliaram a desconfiança de parte da população no sistema democrático, criando um ambiente de instabilidade e questionamento institucional. Esse cenário é considerado um dos principais sinais de erosão democrática, mesmo em países com tradição consolidada.
O relatório também destaca pressões sobre instituições independentes, como órgãos eleitorais, imprensa e setores da administração pública. Embora essas estruturas continuem funcionando, há sinais de desgaste em sua autonomia e na forma como são percebidas pela sociedade. A politização desses espaços tende a enfraquecer o papel de fiscalização e equilíbrio dentro do sistema democrático.
A classificação como “democracia eleitoral” não significa que os Estados Unidos deixaram de ser uma democracia, mas indica que a qualidade do sistema caiu em relação ao padrão considerado ideal. O processo eleitoral permanece, com possibilidade de alternância de poder, mas os pilares institucionais que garantem sua solidez apresentam sinais de fragilidade.
O caso americano também está inserido em um contexto global mais amplo. Segundo o V-Dem Institute, o mundo vive um ciclo de declínio democrático, com aumento do número de países que apresentam características de autocratização. Esse fenômeno é marcado pela manutenção de eleições formais, mas com redução gradual das garantias institucionais e concentração de poder.
A reclassificação dos Estados Unidos tem impacto direto no equilíbrio político internacional. Durante décadas, o país utilizou sua posição como democracia liberal para sustentar sua influência global e promover determinados valores políticos. Com a perda desse status, essa autoridade simbólica tende a ser questionada, especialmente por países que já criticavam a atuação internacional americana.
Apesar do cenário de deterioração, os Estados Unidos continuam sendo uma democracia funcional, com instituições operantes e capacidade de resposta. No entanto, o relatório funciona como um alerta: a estabilidade democrática não é permanente e pode ser corroída ao longo do tempo.
A queda dos EUA no ranking global evidencia que até mesmo as democracias mais tradicionais estão sujeitas a pressões internas profundas. Mais do que um evento isolado, trata-se de um indicativo de transformação no cenário político global, onde o equilíbrio de poder e os modelos de governança passam por mudanças significativas.
Fontes:
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