Mudanças no setor de erva-mate reduzem renda no campo argentino e ampliam busca por trabalho formal no Brasil

📸 Imagem representativa
Por Alison Zani
PORTO ALEGRE – O cenário nas plantações de erva-mate em Misiones, na Argentina, mudou drasticamente nos últimos meses. O que antes era o motor econômico da região transformou-se no epicentro de uma crise social que atravessou a fronteira. Após as reformas de desregulamentação promovidas pelo governo de Javier Milei, que retiraram do Instituto Nacional da Erva-Mate (INYM) a autoridade para fixar preços mínimos, o setor entrou em colapso para os pequenos produtores, gerando um movimento migratório sem precedentes em direção ao Brasil.
O Fim do Preço Mínimo e o Efeito Cascais
A crise começou com a assinatura do Decreto de Necessidade e Urgência (DNU), que despojou o INYM de suas funções regulatórias. Sem o “preço sustento”, os produtores de folha verde viram o valor pago pelas grandes indústrias despencar. Em termos reais, o valor recebido por quilo da folha verde caiu mais de 50% em poucos meses, enquanto os custos de produção e a inflação geral na Argentina continuaram a subir.
Para milhares de famílias em Misiones e Corrientes, a conta parou de fechar. “Trabalhamos para perder dinheiro. A erva-mate sempre foi nossa poupança, mas hoje não paga nem o diesel do trator”, afirma um produtor que preferiu não se identificar.
A Explosão dos CPFs e o Mercado Brasileiro
A resposta a essa inviabilidade econômica reflete-se nos dados da Receita Federal brasileira. Em um salto estatístico impressionante, a emissão de CPFs para cidadãos argentinos atingiu a marca de 40 mil em 2025, quadruplicando a média histórica anual de 8 mil registros.
Diferente do fluxo turístico tradicional que ocupa as praias de Santa Catarina no verão, este novo perfil migratório é composto por trabalhadores em busca de formalização. O CPF é a porta de entrada para o mercado de trabalho formal, permitindo que esses imigrantes ocupem vagas em setores que sofrem com a escassez de mão de obra no Sul do Brasil.
Os Polos de Atração: Do Campo à Indústria
O fluxo migratório tem se concentrado em três frentes principais:
Colheitas Sazonais: Trabalhadores que antes colhiam mate na Argentina agora cruzam a fronteira para as safras de uva e maçã na Serra Gaúcha e no Meio-Oeste catarinense.
Setor de Serviços: Nas cidades de médio porte, como Caxias do Sul e Chapecó, argentinos têm encontrado espaço em cozinhas, logística e construção civil.
Vantagem Cambial: A valorização do Real frente ao Peso argentino atua como um poderoso imã. O envio de remessas para famílias que permaneceram na Argentina tornou-se uma estratégia de sobrevivência, já que o Real convertido no câmbio paralelo (o “Blue”) garante um poder de compra que o trabalho local já não oferece.
Um Novo Perfil Migratório
Embora os venezuelanos e haitianos ainda liderem as estatísticas de imigração no Brasil, os argentinos consolidaram-se como a terceira maior força de trabalho estrangeira formal no país. O fenômeno é caracterizado por uma integração facilitada pelo idioma e pelos acordos de residência do Mercosul, que permitem que o trâmite documental seja mais ágil do que para outras nacionalidades.
Perspectivas
Enquanto o governo argentino defende que a desregulamentação trará eficiência e competitividade a longo prazo, o impacto imediato é de esvaziamento do campo. No Brasil, o desafio passa a ser o acolhimento e a integração desses profissionais, que chegam não apenas com a esperança de dias melhores, mas com o conhecimento técnico de uma cultura que une os dois países: o hábito do mate, que agora, ironicamente, separa o produtor de sua terra.
Fonte: Diario de Pernambuco
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