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Flávio Bolsonaro é alvo de investigação por lavagem de dinheiro e corrupção em repasses de Vorcaro para o filme de Jair Bolsonaro, ‘Dark Horse’

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Investigação apura suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas em repasses de Daniel Vorcaro para a produção de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro.

O Supremo Tribunal Federal (STF), sob relatoria do ministro André Mendonça, retirou parcialmente o sigilo do inquérito (INQ 5026) que investiga o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL). A apuração concentra-se em suspeitas de lavagem de dinheiro, corrupção e evasão de divisas estruturadas por meio do financiamento da cinebiografia Dark Horse, obra sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.

A peça central do inquérito da Polícia Federal (PF) é a relação direta entre o parlamentar e Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. O cruzamento de mensagens, documentos apreendidos e dados de inteligência financeira revela um esforço coordenado de captação que resultou no repasse de US$ 12,3 milhões (cerca de R$ 62,9 milhões), montante que representa mais da metade do orçamento total estimado de US$ 24 milhões para a produção.

O Mecanismo de Evasão: Delação e o Fundo Havengate

O eixo que sustenta a tese de lavagem de capitais e evasão de divisas repousa sobre a desproporção dos valores e a engenharia financeira internacional utilizada. O plano de negócios do filme apresentado aos investidores não detalhava o escoamento dos US$ 24 milhões por etapa de produção, o que, para os investigadores, levanta a suspeita de uso da obra como fachada para movimentações ilícitas.

A mecânica do esquema foi exposta pela delação premiada de Antônio Carlos Freixo Junior (o “Mineiro”), operador do mercado financeiro e dono da empresa Entre Investimentos e Participações. Segundo a delação, sob ordens de Vorcaro, Freixo enviou os US$ 12,3 milhões aos Estados Unidos.

O destino dos recursos foi o Havengate Development Fund LP. A gravidade identificada pela PF reside na natureza do fundo:

Criado em 2020 para um projeto imobiliário no Texas que nunca saiu do papel, o Havengate permaneceu operacionalmente inativo por quase quatro anos.

O fundo foi subitamente reativado em 13 de fevereiro de 2025, exclusivamente para receber o primeiro repasse do filme.

O administrador do fundo é Paulo Calixto, advogado do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), estabelecendo uma ligação da operação financeira nos EUA com o núcleo político da família.

As transferências atípicas acionaram o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF), que mapeou a operação. O inquérito também alcança o deputado federal Mário Frias (por envolvimento na estruturação) e o pastor Fabiano Zettel, cunhado e operador de Vorcaro.

A Cronologia da Operação

Os dados extraídos dos aparelhos apreendidos estabelecem a linha do tempo da pressão financeira exercida sobre o ex-banqueiro durante o ano de 2025:

Início das Tratativas

Agosto de 2025

Após contatos iniciais mediados pelo empresário Thiago Miranda, Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro iniciam comunicação direta. Em 20 de agosto, mensagens confirmam um encontro presencial entre ambos.

O Áudio e a Remessa Final

Setembro de 2025

Flávio envia áudios cobrando Vorcaro para evitar calote na equipe internacional. No dia 16 de setembro, uma ligação direta coincide com a última remessa financeira identificada ao Havengate, no valor de US$ 1,6 milhão.

Produção no Limite

22 de Outubro de 2025

No terceiro dia de gravações, Flávio reporta que a equipe operava “no limite” financeiro. Ele pede que Vorcaro avise caso não consiga realizar o aporte, para que pudesse buscar alternativas, e o convida para jantar com o ator Jim Caviezel.

Véspera da Prisão

Novembro de 2025

Horas antes da primeira prisão de Vorcaro, Flávio tenta contato telefônico e envia mensagem de solidariedade irrestrita: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!”

O Áudio Decisivo (8 de Setembro de 2025)

A evidência de maior impacto político no inquérito é um áudio enviado por Flávio Bolsonaro, que materializa a dependência do projeto em relação aos aportes de Vorcaro e o temor de repercussão internacional negativa:

“Meu irmão, preferi te mandar o áudio aqui para você ouvir com calma. (…) E apesar de você ter dado liberdade, Daniel, da gente te cobrar, eu fico sem graça de ficar te cobrando, tá? Mas, enfim… é porque está num momento muito decisivo aqui do filme e, como tem muita parcela para trás, cara, está todo mundo tenso. (…) Imagina a gente dando calote no Jim Caviezel, no Cyrus (Nowrasteh) … os caras, porra, renomadíssimos lá no cinema americano, mundial. Pô, ia ser muito ruim. (…) E agora que é a reta final que a gente não pode vacilar, não pode não honrar com os compromissos aqui, porque senão a gente perde tudo, cara.”

Projeções Fora da Realidade e Impacto Político

Para justificar o alto investimento, a produção executiva apresentou a Vorcaro projeções de bilheteria completamente desconectadas da realidade do mercado cinematográfico brasileiro, estimando receitas entre US$ 45 milhões (R$ 229,5 milhões) e US$ 100 milhões (R$ 510 milhões).

A PF destacou que o cenário otimista projetava superar em mais de três vezes a maior bilheteria nacional histórica (Minha Mãe É uma Peça 3, R$ 120 milhões) e ultrapassar até mesmo blockbusters internacionais como Homem-Aranha: Um Novo Dia. Os R$ 510 milhões projetados também superariam a bilheteria de Homem-Aranha: Um Novo Dia, que se tornou a maior bilheteria do Brasil em 2026. Para a investigação, essa discrepância gritante reforça a tese de que o filme era um veículo para lavagem.

O lançamento de Dark Horse estava agendado para 11 de setembro de 2026, às vésperas do atual pleito eleitoral, mas foi suspenso. O uso de dezenas de milhões de dólares fora do sistema financeiro formal, atrelado a um calendário eleitoral, consolida a suspeita de desvio de finalidade.

A Polícia Federal e a PGR focam agora no cruzamento dos dados de câmbio da delação de “Mineiro” com a telemática de Vorcaro para rastrear os destinatários finais do dinheiro. Em nota, a defesa de Flávio Bolsonaro nega qualquer irregularidade, sustentando que os recursos captados possuem origem estritamente privada.

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