Investigação da PF rastreia recursos ligados ao filme Dark Horse e identifica conexões empresariais com emendas, contrato de Wi-Fi em São Paulo e apurações sobre fraudes no INSS e lavagem de dinheiro ligada ao PCC.

A quebra de sigilos determinada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) revelou a anatomia de uma das mais complexas operações de rastreamento financeiro conduzidas pela Polícia Federal (PF). O inquérito que investiga o financiamento de Dark Horse, projeto cinematográfico sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, extrapolou o escopo cultural. Os dados demonstram a intersecção entre captação de recursos privados, desvio de emendas parlamentares, contratos municipais e infraestruturas contábeis utilizadas pelo crime organizado.
A investigação apura um possível ecossistema de lavagem de dinheiro operado em múltiplas frentes, analisando como ferramentas de financiamento político e contratos públicos podem ter sido instrumentalizados para capitalizar a produtora Go Up Entertainment, responsável pelo longa.
A Engenharia Financeira e o Eixo Internacional
A base do financiamento privado envolveu uma estrutura internacional de remessas, atualmente analisada pela PF sob suspeitas que incluem evasão de divisas. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) atuou na negociação direta com Daniel Vorcaro, ligado ao Banco Master. As tratativas documentadas pela PF alcançaram o montante de US$ 24 milhões (cerca de R$ 134 milhões na cotação da época).
Para viabilizar a entrada desses recursos na produção, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) orientou a engenharia de remessas. Interceptações da PF registraram comunicações onde a transferência doméstica de valores é classificada como “problemática”. A solução executada foi a estruturação do caixa no exterior, canalizando os repasses da empresa Entre Investimentos e Participações diretamente para o Havengate Development Fund, sediado nos Estados Unidos.
Emendas Parlamentares e a Atuação de Mário Frias
O braço legislativo do esquema operou sob a gestão do deputado federal Mário Frias (PL-SP), produtor executivo do filme. A análise financeira da PF identificou repasses atípicos e contratações sob investigação viabilizadas por suas emendas.
Injeção Direta de Capital: Durante o período de filmagens em São Paulo (novembro e dezembro de 2025), Frias transferiu R$ 645,4 mil de suas contas pessoais para a Go Up Entertainment.
Irregularidades em Projetos: O Instituto Conhecer Brasil (ICB), presidido pela mesma dona da produtora do filme, Karina Ferreira da Gama, recebeu R$ 1 milhão em emendas de Frias para o projeto “Jovem Empreendedor”.
Fraude em Licitações: A Controladoria-Geral da União (CGU) e a PF investigam o repasse de R$ 700 mil deste montante para empresas de fachada, com orçamentos forjados no mesmo dia e com diferença de minutos, em um possível direcionamento de verbas.
Trecho do Relatório da PF sobre a movimentação de Mário Frias:
Segundo a PF, os rendimentos mensais declarados do parlamentar, de cerca de R$ 44 mil, precisam ser confrontados com os repasses que totalizam R$ 645,4 mil feitos em um intervalo inferior a 60 dias diretamente à produtora investigada, coincidindo com a fase de execução do projeto audiovisual.
A Conexão Paulista: Triangulação do Wi-Fi Público
Uma das frentes investigadas em território nacional envolve contratos firmados com o município de São Paulo. A figura central desta operação é Karina Ferreira da Gama, que controla simultaneamente a produtora do filme (Go Up), o ICB e a Academia Nacional de Cultura (ANC).
A PF identificou uma movimentação de R$ 6,1 milhões originada de um contrato de mais de R$ 100 milhões firmado entre o ICB e a Prefeitura de São Paulo (gestão Ricardo Nunes) para a instalação de Wi-Fi gratuito. O dinheiro público foi pulverizado e, segundo a investigação, parte dos recursos retornou ao núcleo do filme através de subcontratações que estão sob investigação com empresas terceirizadas de tecnologia e logística:
- Complexsys Soluções Integradas: R$ 3,93 milhões repassados à ANC.
- Ultra IP: R$ 1,33 milhão repassado à ANC.
- Fastfuture: R$ 603 mil repassados à ANC.
- Distribuidora LMS: R$ 300 mil repassados à ANC.
O Elo Contábil com o Crime Organizado (INSS e PCC)
A sofisticação do esquema exigiu a contratação de escritórios de contabilidade e consultoria jurídica especializados em blindagem patrimonial. Ao puxar o fio dessas prestadoras de serviço (como Projetus Ltda, MTS Assessoria e LF&P Consulting), a PF cruzou dados com investigações preexistentes, revelando que empresas e estruturas contábeis também aparecem em outros casos investigados.
As mesmas empresas e estruturas financeiras aparecem em apurações relacionadas às fraudes sistêmicas de concessão de benefícios no INSS e à lavagem de capitais ligada ao Primeiro Comando da Capital (PCC). O cruzamento de dados aponta que operadores financeiros e empresas que aparecem nas investigações envolvendo o núcleo do filme também surgem em outros inquéritos relacionados ao crime organizado.
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