Sugestão de ceder tecnologia do Banco Central a Washington gera debate sobre soberania digital e abre divergências na própria base bolsonarista.

📸 Eduardo Bolsonaro / imagem representativa
Em entrevista concedida ao portal TMC News, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro sugeriu que o Brasil considere a substituição do Pix pelo Zelle — o sistema de transferências instantâneas utilizado nos Estados Unidos. A declaração surge como uma proposta de flexibilização diplomática diante da recente ofensiva comercial de Washington contra a infraestrutura financeira brasileira.
A Casa Branca abriu uma investigação comercial sob a Seção 301 da legislação americana, sinalizando a imposição de uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros. O argumento de Washington é que as regras estabelecidas pelo Banco Central do Brasil para o Pix configuram concorrência desleal, prejudicando a operação de gigantes americanas do setor de cartões de crédito, como Visa e Mastercard.
Como estratégia para aliviar a pressão econômica, Eduardo Bolsonaro defendeu que o ecossistema de pagamentos nacional seja utilizado como moeda de troca:
“Os Estados Unidos têm mecanismos muito semelhantes ao Pix, como, por exemplo, Zelle, que é o Pix dos Estados Unidos. Dá para você ir para uma mesa de negociação com os americanos com bons argumentos, dá para você sentar, dá para negociar.”
Divergências na oposição
A sugestão de ceder a um dos principais símbolos de inovação tecnológica do país fraturou a própria base de oposição ao governo federal. Em direção oposta ao irmão, o senador Flávio Bolsonaro apressou-se em blindar a ferramenta nacional da disputa externa, afirmando publicamente que “o Pix é do Brasil (…) não tem essa conversa de que alguém vai acabar com o Pix”.
Modelo Público vs. Modelo Privado: O Entrave Técnico
Especialistas do setor financeiro e regulatório apontam que a substituição sugerida enfrenta barreiras técnicas e estruturais severas. Embora cumpram funções semelhantes para o usuário final, o Pix e o Zelle operam sob lógicas jurídicas e operacionais completamente opostas:
- Governança e Controle: O Pix é um sistema público, desenvolvido, regulado e centralizado pelo Banco Central do Brasil. Já o Zelle é uma plataforma estritamente privada, gerenciada pela empresa Early Warning Services, que pertence a um consórcio dos maiores bancos dos EUA, incluindo JPMorgan Chase, Bank of America e Wells Fargo.
- Integração e Obrigatoriedade: No Brasil, a adesão ao Pix é mandatória para todas as instituições financeiras com mais de 50 mil contas ativas, o que garante a interoperabilidade total (qualquer pessoa transfere para qualquer banco). Nos EUA, o Zelle é opcional e fragmentado; ele funciona apenas entre os bancos que escolheram fazer parte da rede de parceiros, deixando de fora clientes de cooperativas menores ou de certas plataformas digitais.
- Custos e Acessibilidade: O Pix foi desenhado para garantir gratuidade total para pessoas físicas por determinação legal, focando na inclusão financeira. O Zelle, embora geralmente não cobre taxas dos usuários finais no varejo tradicional, opera sob um modelo de negócios que responde a interesses privados e tarifas corporativas definidas pelos bancos membros.
Impacto no Mercado e Inclusão Financeira
Analistas políticos avaliam que mexer no Pix gera um custo político elevado. Desde o seu lançamento, a ferramenta bancarizou milhões de brasileiros e reduziu drasticamente o custo de transação para microempreendedores e comerciantes. Substituir uma rede pública universal por uma plataforma privada inspirada no modelo norte-americano enfrentaria forte resistência do eleitorado, do varejo e de setores técnicos do Banco Central.
O Ministério das Relações Exteriores e a equipe econômica ainda avaliam os desdobramentos da investigação da Seção 301 conduzida pelos EUA, mas o debate sobre a soberania da infraestrutura financeira do país promete se intensificar nos próximos dias.
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