Aproximação entre Brasil e China ocorre em meio às críticas dos Estados Unidos ao Pix e ao avanço da disputa global por tecnologia, pagamentos digitais e soberania econômica.

📸 Aplicativo bancário para pagamento financeiro em pix. Foto: Bruno Peres/Agência Brasil
A aproximação entre Pequim e Brasília para a possível cooperação entre o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos (Pix) e os mecanismos financeiros chineses marca uma nova fase na estratégia de desdolarização do comércio bilateral. A sinalização, emitida nesta semana por representantes do Banco Central chinês durante fórum financeiro em Xangai, ocorre em um momento em que a arquitetura de pagamentos do Brasil se tornou alvo de retaliações comerciais americanas.
O Eixo Técnico da Cooperação
O interesse chinês concentra-se na viabilidade de operacionalizar pagamentos transfronteiriços diretos, utilizando o Sistema de Pagamentos em Moeda Local (SML) como base de referência. A premissa analítica é a substituição do dólar como moeda de reserva e unidade de conta nas transações entre os dois países.
Ao eliminar a necessidade de conversão via dólar, ambos os Estados visam reduzir o risco cambial e os custos operacionais que incidem sobre o fluxo comercial sino-brasileiro, atualmente na casa dos bilhões de dólares anuais. A proposta chinesa sugere a criação de um protocolo interoperável que permita que importadores brasileiros liquidem obrigações em reais convertidos diretamente para o yuan, sob supervisão dos bancos centrais de ambas as nações.
O Peso da Soberania Financeira
A movimentação de Pequim não é puramente técnica; ela atua como um contrapeso ao isolamento diplomático-financeiro imposto pelos Estados Unidos. O governo americano tem conduzido uma ofensiva contra o modelo de governança do Pix.
Washington alega que a gestão centralizada do sistema pelo Banco Central do Brasil — acumulando funções de regulador e operador da infraestrutura — constitui “prática desleal”. Essa controvérsia escalou a ponto de legisladores americanos defenderem tarifas punitivas de 25% sobre produtos brasileiros, um movimento interpretado pelo Itamaraty e pela equipe econômica como uma tentativa de forçar a abertura do sistema de pagamentos brasileiro à entrada forçada de bandeiras e operadoras americanas.
Implicações Geopolíticas
Para o Brasil, a cooperação com a China apresenta um dilema de realismo político:
• Vantagem Estratégica: A integração oferece maior autonomia frente às sanções e ao uso do sistema financeiro global baseado no dólar como instrumento de pressão política.
- Risco de Retaliação: Aprofundar o alinhamento tecnológico-financeiro com a China eleva a probabilidade de uma guerra comercial de larga escala com Washington, cujos efeitos sobre a balança comercial brasileira podem superar os benefícios de redução de custos na compensação financeira.
Até o presente momento, o Banco Central do Brasil mantém cautela, tratando as conversas com os pares chineses como parte de um intercâmbio de experiências técnicas sobre infraestruturas digitais, sem compromisso de implementação imediata. Contudo, a pressão externa tende a acelerar a necessidade de uma decisão: ou o Brasil cede às exigências de conformidade americana ou acelera o desenvolvimento de uma rede de pagamentos alternativa, ancorada no BRICS+.
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