Contraste entre discursos críticos a programas de transferência de renda e o histórico de recebimento de auxílios governamentais por oito anos recoloca o debate sobre coerência política no centro da campanha eleitoral.

Registros do Portal da Transparência do Governo Federal apontam que a influenciadora e candidata a deputada federal Sophia Barclay (PL-SP), autodenominada “trans de direita”, consta como beneficiária de transferências de renda, incluindo o Bolsa Família e o programa Auxílio Gás (Gás do Povo), por um período de oito anos. Os dados consultados apontam pagamentos que totalizam R$ 27.492 no período, abrangendo desde maio de 2018, época em que residia no Rio de Janeiro, até o primeiro semestre de 2026.
A situação gerou repercussão no cenário político devido ao contraste com o posicionamento público da candidata em relação às políticas sociais. Em postagens veiculadas em redes sociais, Barclay criticou de forma contumaz o modelo de assistência do governo federal. Em setembro de 2025, publicou declarações em que afirmou que “tem gente que merece mesmo viver apenas de Bolsa Família e se contentar com pouco. Bando de porco”, além de defender posteriormente a obrigatoriedade de prestação de serviços comunitários para beneficiários sem filhos menores, sob o argumento de que o programa “não é aposentadoria”. Em outra ocasião, comparou o recebimento de auxílios governamentais à submissão a relacionamentos abusivos.
Diante da divulgação dos dados oficiais, a candidata manifestou-se publicamente para confirmar e justificar o recebimento dos recursos. Por meio de nota e vídeos em suas redes sociais, Barclay argumentou que utilizou os valores em um momento de extrema vulnerabilidade pessoal, decorrente de seu afastamento familiar na juventude, mas ressaltou que não converteu a assistência em um projeto de vida permanente.
Conforme declarou a candidata:
“Recebi, sim, o Bolsa Família em um momento da minha vida. Mas nunca fiz disso um projeto de vida. Fui beneficiária quando precisei, mas cresci, trabalhei e venci na vida. E essa é justamente a diferença que defendo. Não sou contra benefícios sociais. Sou contra transformar assistência em dependência permanente. O que eu quero para o brasileiro é oportunidade para que ele também possa crescer, conquistar sua independência e vencer.”
No que tange à presença de repasses recentes em seu nome — como os lançamentos computados no primeiro semestre de 2026, Barclay atribuiu a manutenção dos registros a cadastros unificados vinculados a núcleos familiares (CadÚnico) ao residir com parentes, pontuando que sua transição definitiva para uma renda autônoma como influenciadora e empresária consolidou-se após o período da pandemia. O caso passa a integrar o escrutínio do debate público sobre coerência discursiva e gestão de cadastros sociais no atual ciclo eleitoral.
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